Terça-feira, 3 de Março de 2015
publicado por JN em 3/3/15

3.3.15.jpegQuem me falava das estrelas era o meu avô. Punha-se no jardim, a dobrar o lenço-da-mão, e fazia o seu ar pesaroso. Falava-me de Cassiopeia, das Ursas, de Andrómeda. Eu só gostava do Sete-Estrelo.

Ele perguntava: “E aquela?” E eu: “Dragão.” “E aquela?” “Girafa.” De três em três, voltava à casa de partida, com um risinho: “E aquela?” E eu: “O Sete-Estrelo!” E prolongava a sílaba, com o meu ar suplicante.

As pessoas da Terceira, como eu, fazem um ar suplicante. As de São Jorge, como o meu avô, um ar pesaroso. Às vezes é como se lhes tivesse morrido a esperança. O que, no caso do meu avô, tinha algo de extraordinário, porque eu nunca conheci ninguém mais esperançado.

Não há dia em que eu saia à rua e não procure o Sete-Estrelo. Às vezes murmuro aquele fado que o Zeca Medeiros escreveu para a Mariana Abrunheiro. Outras fumo um cigarro.

Acho que me apaixonei pelo Sete-Estrelo por causa do seu aspecto módico, minúsculo, como se até eu, rapazinho, pudesse trazer uma constelação no bolso. Ou então o nome parecia-me simplesmente engraçado.

Em Lisboa era difícil ver as estrelas. Eu vinha à varanda com o gin na mão, para impressionar as raparigas, e não encontrava uma que fosse. Creio que foi aí que comecei a dividir as terras entre aquelas em que se pode ver as estrelas e aquelas em que não se pode.

Aqui vêem-se muito bem as estrelas. Até numa noite de Inverno como esta, em que fumo um cigarro e penso no meu avô e no modo pesaroso como dobrava o seu lenço-da-mão, para disfarçar a esperança.

Quase sinto pena de ter descoberto, entretanto, que o Sete-Estrelo não é uma constelação, mas um simples aglomerado. No fundo, não me importo. As mentiras em que as pessoas sustentam a sua felicidade são tão válidas como as verdades.

Diário de Notícias, Fevereiro 2015

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2 comentários:
De susana gardete a 4 de Março de 2015 às 06:32
Impressionada. Das coisas mais bonitas que li ultimamente.
Nem foi preciso o gin na mão e as estrelas no céu :)
De JN a 4 de Março de 2015 às 09:20
:) Isso é capaz de ter sido o elogio mais fixe que recebi desde que esta série começou. Obrigado, Susana!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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