Terça-feira, 30 de Dezembro de 2014
publicado por JN em 30/12/14

30.12.14.jpegNotas para um conto infantil. Três pássaros: um santo antoninho, um canário e um pardal. Um laranja, um amarelo e um cinzento. Clero, nobreza e povo.

Raros e difíceis de apanhar, os canários: podem criar-se em cativeiro e cantam maviosamente. Vulgares como o mato, os pardais: qualquer um os agarra, mas morrem na gaiola – e além disso comem vegetais, condições sobre as demais abjecta. Fáceis, também, os santo antoninhos. Mas só comem bichinhos e, uma vez apanhados, devem ser devolvidos à liberdade com a delicadeza de quem liberta um anjo.

Ou então com o ressentimento de quem solta do anzol um peixe-sapo.

Evitar meninos bondosos com sotis de cana (os meninos não são bondosos) e pardalinhos com penas de faisão (melhor excluir a burguesia, que só complica). Incluir um queimado, sobrevoando imperial, e talvez um lavrador com uma calibre 20 das antigas.

Mas há uma sotil, sim. Bela como essa que tive na infância, feita pelo velho avô. Quem me dera ter guardado uma fotografia.

Será “sotil” que se escreve? Com “o” ou com “u”, de subtil, tão delicada era? Ou será “setil”, como se diz nas freguesias da Praia? E, nesse caso, a partir do quê? De steel trap? De still trap?

Não encontro o termo nos dicionários. Na internet, só aparece duas vezes, ambas com “o” – sempre escrita por mim. O mesmo com o santo antoninho, vejo agora. “Pisco-de-peito-ruivo”, dizem os sites. Nos açorianos, “vinagreira”.

Ah, não, cá está: “santantoninho”, uma só palavra. Não devia ter duvidado: de todos os nomes, um bom avô ensina sempre o mais literário.

Naquelas quartas classes antigas, não cabiam apenas a fábula e a luta de classes: cabiam o paradoxo e a própria ironia. Tratando-se de passarada, os bons da fita são os carnívoros.

Diário de Notícias, Dezembro 2014

| partilhar
Comentar:
De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



O dono deste Blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.
Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
Moradas
no facebook
pesquisar neste blog
 
livros de ficção

Os Sítios Sem Resposta
ROMANCE
Porto Editora
2012
Saber mais
Comprar aqui


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas"

CONTOS
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa

CRÓNICAS
Porto Editora
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português"

OBRA COLECTIVA
Círculo de Leitores
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)"

CRÓNICAS
Esfera dos Livros
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor"
BIOGRAFIA
Publicações Dom Quixote
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor"
CRÓNICAS
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui
subscrever feeds
pesquisar neste blog
 
tags
arquivos
links