Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 19/1/15

19.1.15.jpegHoje, quando visito José dos Cestos, já não é para comprar nada.

Encomendei-lhe um dia uns candeeiros e não me arrependi. Tinha-os visto numa loja, em Lisboa, construídos em palhinha. Pareceram-me absurdamente caros, como aliás me parecem cada vez mais coisas. Trouxe um catálogo e bati-lhe à porta:

– Faça-me isto, mas à sua maneira.

Ficaram lindos – cuidados e imperfeitos ao mesmo tempo, infinitamente desejáveis. Como uma mulher bonita a que as ancas tivessem crescido um nadinha mais do que a conta. Ou o nariz.

Custaram trinta euros.

Colocámo-los na sala, a circunscrever a luz, e pusemo-nos a olhar em volta. Imaginámos arcas, mesinhas, uma cama para o Melville – tudo em vime. Tirámos medidas.

Volta e meia, volto lá. Venho do lado das Quatro Ribeiras, que tem um vale onde um dia eu gostava de retirar-me a escrever romances. Passeio o cão até aos Lagadouros. Compro fruta nas barraquinhas da Calheta, àquela rapariga sorridente que vê a Casa dos Segredos.

Depois visito-o.

José dos Cestos pergunta-me sempre pelos candeeiros. Está sentado numa banqueta, a entrelaçar o vime, e todo o seu corpo trabalha. Segura a peça com os pés para lhe meter uma cunha de metal, abraça-a junto ao peito para dar um nó numa ponta.

Tem as mãos rudes dos homens do campo – aperta os cigarros com tal força que eles se tornam prismas. E, porém, de cada vez que os seus dedos seguram o vime, é como se este tivesse a delicadeza das libélulas.

Falamos das arcas e das mesinhas. Da cama para o cão. Pede-me preços incríveis e, mesmo assim, desculpa-se.

Eu fico ali, a fumar. Cumprimento e regresso na primeira oportunidade.

Pede-me os mesmos preços. Não estamos a regatear um com o outro. Eu tenho a casa cheia. Só quero vê-lo trabalhar, e ele sabe-o.

Diário de Notícias, Janeiro 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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