Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 8/1/15

9.1.15.jpegÉ claro que, lá para Junho, a terra se encherá de rebrilhâncias, as araucárias projectando contrastes na luz límpida da tarde. É claro que, antes ainda de os maios se erguerem nas varandas e os toiros descerem ao Arrabalde, anunciando a nova época, o povo encherá o Basílio Simões e a Feira do Gado, em busca de sementes e plantios.

É claro que o Inverno é longo e que, quando os amigos de Lisboa exalarem as primeiras feromonas, fotografando-se a almoçar na Praia da Morena e a brincar com o cão na Mata de Alvalade, a natureza ainda nos derramará por cima dois meses suplementares de chuva ininterrupta.

E, contudo, ouço o vento que investe agora contra a porta do jardim, como se ele próprio desejasse refugiar-se cá dentro, e acho que não há tempo mais romântico no ano.

A chuva matraqueia ao de leve o telhado. A salamandra difunde pela casa o cheiro doce da acácia queimada. O Melville estica o pescoço, para receber festas, e volta a enroscar-se em si próprio. Ouve-se jazz, muito baixinho. Trabalho o dia inteiro, sem nada que me distraia, e chego a desejar que o fim-de-semana venha longe.

Às quintas à tarde, se posso, faço um desvio ao campo de golfe. O fairway está vazio, um vento desolado assobiando nas criptomérias, e há uma espécie de conhecimento. Outras vezes vou apenas ali abaixo, a São Mateus, ver o mar que se atira contra a escarpa. Ou atravesso o cerrado e vou apanhar tangerinas, por entre o nevoeiro.

Já não há araçás, mas há tangerinas. E torresmos de cabinho. E uma espécie de conhecimento.

A intensa solidão das tempestades. Os poetas nem sempre souberam explicá-la, mas nunca ignoraram a sua existência. É mesmo possível que nasça aí, o ofício da poesia. Talvez também só comece aí a vida.

Diário de Notícias, Dezembro 2014

comentar
| partilhar
Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
Moradas
no facebook
pesquisar neste blog
 
livros de ficção

Os Sítios Sem Resposta
ROMANCE
Porto Editora
2012
Saber mais
Comprar aqui


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas"

CONTOS
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa

CRÓNICAS
Porto Editora
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português"

OBRA COLECTIVA
Círculo de Leitores
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)"

CRÓNICAS
Esfera dos Livros
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor"
BIOGRAFIA
Publicações Dom Quixote
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor"
CRÓNICAS
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui
subscrever feeds
pesquisar neste blog
 
tags
arquivos
links