Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 5/2/15

5.2.15.jpegO Chico envia-me fotografias dos escoadouros da varanda. Já concluiu os retoques nas paredes, mas foi naqueles escoadouros que pôs tudo o que tinha. “Obra de arte”, exclama.

Sempre que viajo, deixo-lhe um pedido ou dois. Entretanto, volta e meia vem cá o Assis, reerguer um muro ou pavimentar um recanto. Na Primavera, o Carlinhos passou um mês a pintar a casa toda, betão, madeira e metais. O José Domingos refez a cozinha há dois anos, acrescentou uns armários no Verão e qualquer dia vai ter de se ocupar das janelas.

O Anselmo das canalizações, o sr. Leonel do esquentador, o sr. Dimas das podas, o sr. Osvaldo dos colchões, a Zélia uma vez por semana – perco a conta aos serviços que temos contratado, e também ao dinheiro que já gastámos.

E ainda falta tratar do salitre, obra para que ninguém me propõe uma boa solução.

Uma casa no campo é assim: há sempre alguma coisa a fazer. E, se não há, inventamo-la. De vez em quando damos por nós a ver sofás. Fazemos projectos para mudar o quarto de hóspedes. Imaginamos um pequeno apartamento na cave, para as visitas. Ou um segundo andar sobre a cozinha, com uma suite panorâmica.

Só aos planos para estender a cozinha jardim dentro, como um conservatory, é que continuamos a adiar. As obras exequíveis são as mais perigosas.

De resto, não nos move tanto a mudança como a luta pelo espaço. É mais do que inquietude das brumas, isto. Uma casa no campo está sempre em obras porque está sempre em risco. A natureza vem por ela dentro.

A hera trepa as paredes. O bicho-sapateiro invade-a por debaixo das portas. A humidade e o caruncho corroem-na devagar.

Uma casa no campo está sempre em obras porque essa é a sua maneira de sobreviver. A nossa. Habitamos um território de fronteira, e há poucas coisas tão viciantes como essa.

Diário de Notícias, Janeiro de 2015

comentar
| partilhar
Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
Moradas
no facebook
pesquisar neste blog
 
livros de ficção

Os Sítios Sem Resposta
ROMANCE
Porto Editora
2012
Saber mais
Comprar aqui


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas"

CONTOS
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa

CRÓNICAS
Porto Editora
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português"

OBRA COLECTIVA
Círculo de Leitores
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)"

CRÓNICAS
Esfera dos Livros
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor"
BIOGRAFIA
Publicações Dom Quixote
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor"
CRÓNICAS
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui
subscrever feeds
pesquisar neste blog
 
tags
arquivos
links