Quinta-feira, 12 de Março de 2015
publicado por JN em 12/3/15

12.3.15.jpegA princípio, comprava-os ao quarteirão. Queria repetir os gestos dos meus antepassados, e os meus antepassados compravam-nos ao quarteirão.
Desisti. No primeiro ano produzi tanto tomate que ainda hoje tenho sacos cheios no fundo da arca. Os amigos vinham cá almoçar e, quando me viam desviá-los para a horta, a meio das despedidas, uniam as mãos:
– Ai, Joel, mais tomate não, pelas alminhas do Purgatório, especialmente as mais abandonadas...
Portanto, compro sete ou oito pés e chega. Mas a rotina é a mesma. Planto-os com um metro de distância uns dos outros, para poder circular, e certifico-me de que a terra fica humedecida. Durante alguns dias, preocupo-me sobretudo com isso: com a água. Ao fim de duas semanas, faço as primeiras escoras de caules e ramos, e então as coisas começam a acontecer cada vez mais depressa.
Todos os dias um tomateiro tem alguma necessidade. É preciso sachá-lo, para não o deixar contaminar por outras plantas, e é preciso capá-lo de filhos e netos, de modo a manter apenas as hastes adequadas à produção. É preciso ir actualizando os nós que o prendem aos esteios e é preciso desbastá-lo por baixo, por causa do oídio. É preciso regá-lo, sulfatá-lo e rodeá-lo de veneno dos caracóis – e é preciso fazer isso tudo quando estiver seco, caso contrário amuará, até ficar preto e, por fim, morrer.
Isto ensinou-mo o meu pai, produtor garboso, em jeito de alma do negócio: em tomateiro húmido não se mexe. Com orvalho nunca, de manhã só com cuidado.
Nesse dia, inventámos uma anedota: o tomateiro é mulher, embezerra com facilidade e nem se lhe pode tocar. Nunca a partilhámos com elas. Sabemos bem que o tomateiro, na verdade, é homem. Como os homens da nossa família: dependentes, humorosos quanto baste e infinitamente frágeis.
Que dê frutos tão bonitos não passa de um paradoxo redentor.

Diário de Notícias, Março 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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