Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 15/1/15

16.1.15.jpegÀs vezes fico só a vê-las passar. Duas limousin à frente, vermelhas e musculadas, com os seus caracóis de encontro ao vento. Uma jersey elegante, que pára a olhar através do pára-brisas, com olhos de garotice. Um grupo razoável de holstein-frísia, sete ou oito pretas por cada vermelha, caminhando pachorrentas. Exemplares dispersos de diferentes raças: uma charolesa, uma simmental-fleckvieh, uma ayrshire (ou talvez guernsey, ou então holstein-frísia vermelha também, nem sempre as distingo como deve ser).

De vez em quando há duas ou três angus ao barulho, pretas e enormes, como aquelas entre as quais passeio o Melville nos Viveiros (essas, sim, dão magníficos bifes). Outras vezes são dois animais apenas, puxando um carro rangente num Bodo de Leite: um par de bois ramo grande, enormes como búfalos – cada um deles uma tonelada de carne e de unhas e de pêlo vermelho com que uma pessoa pode de facto comover-se, ao pôr-se de pé ao seu lado, imaginando a sua história.

Um homem que conduz esse carro de bois, com a sua aguilhada antiga. Dois rapazes de botas-de-cano e sweatshirts da Base, correndo com os seus bordões a tapar canadas, enquanto o patrão guia a manada pelo macadame com a sua carrinha. Uma família apenas, um pai e duas crianças, a mais pequena uma menina, arrastando três bezerras de um cerrado para o outro, muito preocupados com o trânsito.

Uma fila de carros alongando-se já entre as hortênsias. Nenhum apito. Nenhum insulto – paciência apenas, que estão a passar os homens de trabalho com as suas gueixas. A paisagem mudando radicalmente apenas porque mudam as raças de vaca. E eu ali, fixado naquela jersey que pára a olhar através do pára-brisas, com os seus olhos negros de garotice.

* Diário de Notícias, Janeiro 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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