Segunda-feira, 17 de Novembro de 2014
publicado por JN em 17/11/14

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Às dez e meia, vou à venda. Estou a trabalhar desde as sete e pouco, pelo que preciso de uma pausa para um café e um cigarro. Nada de muito diferente, por enquanto, do que fazem tantos lisboetas, parisienses (com os seus cafés-clopes) ou londrinos (com os seus coffee & cigarettes num café cool de Stoke Newington, a meio de uma manhã de bloqueio artístico). Até porque também eu vou pela rua a pensar noutra coisa e também para o meu ar esgazeado os transeuntes – se os houver – olharão como para um provável louco.

Na venda, porém, quem me atende é o sr. C, que parece ver na nossa presença na freguesia um modo de apaziguar as saudades dos tempos de Coimbra. E os meus convivas são o velho D., que às vezes me dá uma ajuda no quintal; o M.G., que está à espera do filho para irem tratar das vacas; o J. de S.M., consumidor matutino de meias-bolas (“copos de três”, dir-se-ia no continente); o ti H.C., que bebe Jameson e não cumprimenta ninguém antes das duas da tarde.

Visto um conjunto toscamente combinado de andrajos e equipamento desportivo, que planeio completar quando, ao fim da tarde, conduzir até às estradas de terra batida dos Viveiros, para uma corridinha higiénica. E, no regresso, o que me espera em casa não são as paredes elegantes de um escritório decorado para, sempre que publicar novo livro, aparecer nas fotografias. É uma janela com vista para o castanheiro ao lado do qual ergui a horta. O bezerro do vizinho pastando ao fundo, placidamente, à espera da sua hora. O Melville ressonando alto, algures entre os livros desordenados, à espera apenas de mim.

Nunca quis ter um cão, até que este rafeiro dourado e excitadiço me surpreendeu a subir a mata da Serreta, qual epifania, num dia de beladonas em flor. Tinha acabado de aterrar nas Lajes e não sabia ainda se havia tomado a decisão certa, dois dias antes, ao rejeitar um súbito convite para passar três semanas a escrever na Ledig House, em Nova Iorque. Dei-lhe nome de escritor americano e hoje amo-o como a uma pessoa. Tenho consciência do quão ridículo isso torna tanto do que eu disse e escrevi ao longo dos anos. Mas, quanto ao bezerro do vizinho, ainda conto com uma posta das boas, no próximo Bodo, pelo que talvez não seja, para já, um caso totalmente perdido.

Não há só vantagens em viver no campo. Na ilha Terceira, a que regressei há dois anos e meio depois de vinte a viver em Lisboa, a diferença é menos consensual do que a alegria: provoca logo curiosidade, a seguir um certo medo e, de qualquer modo, em poucos casos grande apreço. Mas a paisagem é sempre redentora. É nela que nos reconfortamos, se alguma vez damos por nós a precisar de repousar das gentes. E, seja como for, quando vivíamos na cidade o impulso de repousar delas era mais frequente – tantas vezes, aliás, por iguais razões de mundividência, ou falta dela (e às vezes da nossa parte).

Beneficio, como é natural, desse advento consagrador da Terceira Revolução Industrial que é a Internet. São os algoritmos que me permitem estar aqui, num lugar não por acaso chamado Dois Caminhos (acredito muito em coincidências, mas não nesta), a repetir os gestos dos meus antepassados, nos intervalos da escrita: aquecer uma chaleira, chegar uma acha ao lume, erguer um alvião de encontro à terra. Ademais, Angra do Heroísmo, essa putefiazinha maquilhada de ternura (oh, não, o verso não é meu, quem me dera), está ali à mão, com os seus solares e palácios, o seu bulício pequenino e a sua majestosa História.

Volta e meia, apanhamos um avião para Lisboa. Às vezes temos saudades dela, embora nunca nos dias de tempestade. Quando os elementos fustigam esta casa a cuja mesa da cozinha o meu velho avô se sentava, com uma navalha, um lenço da mão e uma boceta de rapé no bolso, sentimo-nos mais acompanhados do que nunca.

Nos dias parados, então sim, ligamos para o call center e começamos a fazer planos. Temos sorte, e se calhar até se pode dizer que, até determinado ponto, a nossa cidade continua a ser Lisboa. Sê-lo-á sempre, de algum modo. Estamos a meio caminho, e de qualquer maneira continuamos a trabalhar demasiadas horas. Mas como poderíamos nós viver, agora, sem este silêncio? Sem as azáleas e sem as labandeiras? Sem as alcatras e o cheiro a orvalho? Como poderíamos continuar a acreditar, afinal, que a segunda metade das nossas vidas será mais serena e sábia do que a primeira?

 

A minha Terra Chã

Nos Açores quase não há aldeias: há freguesias. A minha, a que chamaram Terra Chã apesar das inclinações a toda a volta, tem três mil habitantes, 190 anos e um passado glorioso na cultura da laranja e da castanha, de que chegou a abastecer Inglaterra. Hoje, já nem é rural nem urbana: fica no limbo, e além disso tem um bairro social muito pobre. Mas, quando subo ao miradouro do Charcão, ou percorro a Fonte da Faneca, ou contemplo as velhas quintas do Terreiro e do Caminho d’Além, ou atravesso os lugares das Guerrilhas e das Casas Queimadas, assim baptizados porque houve um dia em que tiveram um significado suplementar, não é de História que me alimento. É da infância. É da memória. Nenhuma outra coisa alguma vez me interessará tanto como ela. Nenhuma terá tanta importância.

Evasões, Outubro de 2014

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14 comentários:
De José Rico a 18 de Novembro de 2014 às 07:08
O drama das ilhas é a sua própria contingência momentaneamente disfarçada pelo acesso net ao mundo exterior. Sabe-se da melancolia que aos poucos se vai apoderando dessa contingência. Porque o grande problema do homem acaba por ser a sua própria sedentarização. As mesmas caras, os mesmos topos e cronos continuados da espuma da paisagem toldada pelos nevoeiros, neblinas, humidades e o recurso ao aquecimento forçado da energia, lenha ou eléctrica. No fundo o homem nunca gostou de ser espartilhado, procurou sempre bem-estar, e quando não encontrou, entregou-se ao imediato, ao álcool, à dependência do jogo, no fundo a hábitos cultivados ancestralmente pelos demais que o circundam desde a mais tenra infância. Dar o salto hoje em dia é mais fácil, as metrópoles estão ao alcance de um clique, para quem pode viajar (tem condições económicas e de saúde). De saúde isso mesmo: se por acaso nos acontece algo de grave a grande cidade tem tudo para nos prover auxílio, uma pequena comunidade isolada é um salto no precipício. Carpe diem
De JN a 18 de Novembro de 2014 às 09:03
Obrigado, José. Abraço

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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